A HISTÓRIA DOS VALDENSES

Por J. A. Wylie (1808-1890)
London: Cassell and Company, 1860

ÚLTIMO CAPÍTULO 

AS CONDIÇÕES DOS VALDENSES DESDE 1690

Aborrecimentos — Encargos — Contribuições dos Estrangeiros — Revolução francesa — Avivamento Espiritual— Felix Neff — Dr. Gilly — General Beckwith — Condições oprimidas anteriores a 1840 — Edital de Carlos Alberto — Liberdade de Consciência — A Igreja valdense, a porta por onde a Liberdade Religiosa entrou na Itália — A lâmpada acesa em Roma


Com este segundo plantio dos valdenses em seus vales, o período de suas grandes perseguições pode ser dito ter chegado ao fim. Sua segurança não era completa, nem a medida da sua liberdade era total. Eles ainda estavam sujeitos a algumas opressões; os inimigos sempre estavam a criar boatos para prejudicá-los; pequenos grupos de jesuítas de vez em quando apareciam em seus vales, os precursores, como geralmente eram chamados, com algum novo e hostil edital; eles viviam em constante apreensão de ter os poucos privilégios que tinham sido concedidos cancelados; e em uma ocasião, eles estavam realmente ameaçados de uma segunda expatriação. Eles sabiam, além disso, que Roma, o verdadeiro autor de todos os seus males e aflições, ainda planejava seu extermínio, e que ela havia feito um protesto formal contra a sua reabilitação, e dado ao duque claramente a entender que ser amigo dos valdenses era ser inimigo do Papa. [Monastier, p. 389. Declaração do Papa Inocêncio XII. (19 de agosto de 1694); o edital do duque, que restabeleceu os valdenses era considerado nulo e sem efeito, e intimou seus inquisidores a não prestar atenção a ele em sua perseguição aos hereges]. Não obstante, a sua condição era tolerável em comparação com as terríveis tempestades que tinha escurecido seu céu em épocas anteriores.

Os valdenses tinham tudo para começar de novo. Sua população fora dizimada, pois foram abatidos pela pobreza; mas tinham grande poder de recuperação; e seus irmãos na Inglaterra e na Alemanha apressaram-se a ajudá-los a reorganizar a sua Igreja, bem como toda a organização civil e eclesiástica que o "exílio" havia tão rudemente feito em pedaços. William III da Inglaterra incorporou um regimento de valdenses as suas próprias custas, o qual colocou a serviço do duque, e foi devido a este regimento principalmente que o duque não foi totalmente derrotado em suas guerras com o seu antigo aliado, Luis XIV. Em um determinado momento da campanha, quando pressionado, Victor Amadeus teve que apelar pela proteção dos valdenses, quase no local exato onde os representantes de Gianavello haviam implorado a ele para a paz, mas haviam implorado em vão.

Em 1692, havia doze igrejas nos vales; mas o povo não tinha condições de manter um pastor em cada uma delas. Eles estavam sendo pesadamente taxados por tributos militares. Além disso, uma exigência imperativa foi feita sobre eles, para pagamento das dívidas de impostos que haviam se acumulado em relação às suas terras durante os três anos em que estiveram ausentes e quando eles não haviam nem semeado ou colhido. Qualquer coisa mais extorsiva não poderia ser imaginada. Em sua dificuldade extrema, Maria da Inglaterra, consorte de William III, concedeu-lhes uma "subvenção real", para prover pastores e professores, e este subsídio foi ainda maior com o aumento do número de igrejas, até que alcançou o montante anual de 550 libras. Uma coleta que foi feita na Grã-Bretanha no período subsequente (1770) permitiu um aumento dos salários dos pastores. Este fundo tinha o nome de "subvenção nacional", para distingui-lo do primeiro, a "subvenção real". Os Estados Gerais da Holanda seguiram o caminho do soberano Inglês, e fizeram coletas para os salários dos professores, gratificações aos pastores aposentados, e para a fundação de uma escola de latim. Também não podemos deixar de citar os protestantes da Suíça que concederam bolsas a estudantes dos Vales em suas academias — uma na Basiléia, cinco em Lausanne, e duas em Genebra [Muston, p. 220-1. Monastier, p. 388-9].

A política da Corte de Turim para com os valdenses mudou junto com a grande corrente política européia. Em um momento desfavorável, quando a influência do Vaticano estava em ascensão, Henri Arnaud, que tão gloriosamente os levou de volta ao Israel dos Alpes, à sua antiga herança, foi banido dos vales, junto com outros, seus companheiros de patriotismo e virtude, para o exílio. Na Inglaterra, através de William, tentou chamar o herói à sua terra, mas Arnaud retirou-se para Schoenberg, onde passou seus últimos anos no exercício humilde e carinhoso dos deveres de um pastor entre os seus compatriotas expatriados, cujos passos ele guiou para as moradas celestiais, como tinha feito os seus irmãos à sua pátria terrestre. Ele morreu em 1721, aos quarenta anos de idade.

O século se passou sem que nenhum acontecimento muito notável ocorresse. A condição espiritual dos valdenses definhou. O ano de 1789 trouxe com ele mudanças impressionantes. A Revolução Francesa soou no sino dos velhos tempos, e introduziu terremotos que abalaram as nações, e derrubaram tronos e altares que estavam no poder por uma nova era política. Os valdenses, mais uma vez, passaram para o domínio da França. Seguiu-se um aumento de seus direitos civis, e uma melhoria de sua condição social, mas, infelizmente, com a amizade da França veio o veneno de sua literatura, e o voltairianismo [N.T.: corrente de pensamento do filósofo francês Voltaire] ameaçou causar ferimentos mais mortais para a Igreja dos Alpes do que todas as perseguições dos séculos anteriores. Na restauração os valdenses foram devolvidos aos seus antigos soberanos, e com seu retorno à Casa de Sabóia, eles voltaram para suas antigas restrições, embora a mão da perseguição sangrenta não pudesse ser mais estendida.

O tempo estava se aproximando agora para esse povo venerável obter a emancipação final. Esse grande livramento que se levantou sobre eles, como o sol do dia sobre a terra, foi em lentas etapas. A visita feita a eles por Felix Neff, em 1808, foi o primeiro amanhecer de seu novo tempo. Com ele, um sopro do céu, sentiu-se, e passou ao longo dos ossos secos. A próxima etapa da sua ressurreição foi a visita do Dr. Stephen William Gilly, em 1828. Ele lembrando, nos diz, que a convicção de que "este é o local de onde é provável que o grande semeador voltará a lançar a sua semente, quando for do seu agrado permitir que a Igreja pura de Cristo retome o seu lugar nesses estados italianos de onde as intrigas do Pontificado o desalojou" [ Waldensian Researches, by William Stephen Gilly, M.A., Prebendary of Durham; p. 158; Lond., 1831]. O resultado da visita do Dr. Gilly foi a construção de um colégio em La Torre, para a instrução dos jovens e a formação de ministros, e um hospital para os doentes; além de despertar um grande interesse em seu nome, na Inglaterra. [Era tão grande a ignorância em relação a este povo, que Sharon Turner, falando dos valdenses, em sua História da Inglaterra, colocou-os como habitantes das margens do Lago Leman, confundindo os Vales dos valdenses com este local].

Depois do Dr. Gilly, levantou-se outro amigo para ajudar os valdenses, e prepará-los para o seu dia de libertação. A carreira do general Beckwith é como um romance não muito diferente daquele que pertence à vida de Inácio de Loyola. Beckwith era um jovem soldado, e era bravo, cavalheiresco, ambicioso de glória como Loyola. Ele tinha passado ileso por batalhas e cercos. Ele lutou na Batalha de Waterloo até o inimigo debandar e o sol se por. Mas um soldado em fuga descarregou seu mosquete ao acaso, e a perna do jovem oficial foi atingida pela bala. Beckwith, como Loyola, passou ​​meses sobre um leito de dor, durante o qual ele tirou de sua mala a Bíblia negligenciada, e começou a ler e estudar. Ele tinha se deitado, como Loyola, um cavaleiro da espada, e como ele, levantou-se um cavaleiro da cruz, mas num sentido verdadeiro.

Um dia, em 1827 ele fez uma visita a Apsley House, e enquanto esperava o duque, pegou um volume que estava sobre a mesa. Era a narrativa do Dr. Gilly de sua visita aos valdenses. Beckwith sentiu-se atraído irresistivelmente por um povo cuja história maravilhosa este livro o fez conhecer pela primeira vez. A partir desse momento a sua vida foi consagrada a eles. Ele viveu entre eles como um pai. Ele dedicou sua fortuna para eles. Ele construiu escolas, igrejas e casas pastorais. Ele proporcionou mais livros escolares, e sugeriu melhores métodos de condições de ensino. Ele se esforçou, acima de tudo em tornar mais profunda a sua vida espiritual. Ele ensinou-os a como responder às exigências dos tempos modernos. Ele incutia neles especialmente que o campo era maior do que os seus vales; e que um dia eles seriam chamados para se levantar e caminhar através da Itália, no comprimento e na largura da mesma. Ele foi o seu advogado na Corte de Turim; e quando ele tinha obtido para eles a posse de um cemitério, fora de seus vales, ele exclamou: "Agora eles têm a investidura do Piemonte, como fizeram os patriarcas de Canaã, e logo toda a terra será deles". [O autor pode ser autorizado a dar o seu testemunho pessoal em relação aos trabalhos do general Beckwith em prol dos valdenses, e através deles para a evangelização da Itália. Na ocasião de sua primeira visita aos vales em 1851, ele passou uma semana na maior parte do tempo na companhia do general, e teve detalhes de sua própria boca dos métodos que estava seguindo para a elevação da Igreja dos valdenses. Por todos os vales ele era reverenciado como um pai. Sua denominação comum entre eles era "o benfeitor dos valdenses"].
Mas apesar dos esforços de Gilly e Beckwith, e do crescente espírito de tolerância, os valdenses continuaram a gemer sob uma carga de incapacidades políticas e sociais. Eles ainda eram uma raça proscrita.

Os amplos limites que seus vales outrora tinham, nos últimos tempos, foram grandemente reduzidos, e como a célula de ferro na história, seu território foi anualmente quase apertado como um círculo em volta deles. Eles não podiam ter propriedade, ou mesmo fazenda, uma porção de terra, ou praticar qualquer negócio, além de sua própria fronteira. Eles não podiam enterrar seus mortos senão nos vales, e quando por acaso qualquer um de seus cidadãos morria em Turim ou em outros lugares, seus corpos tinham que ser levados por todo o caminho aos seus próprios cemitérios. Eles não tinham permissão para erigir uma lápide de seus mortos, ou mesmo incluir em sua sepultura um muro. Eles eram excluídos de todas as profissões liberais e graduadas — eles não podiam ser banqueiros, médicos ou advogados. Nenhuma ocupação era permitida a eles senão cuidar de seus rebanhos e poda das suas vinhas. Quando algum deles emigrava para Turim, ou outra cidade do Piemonte, não era permitido exercer outra atividade senão de empregados domésticos. Não havia nenhuma máquina de impressão em seus vales — eram proibidos de ter uma; e os poucos livros que possuíam, na maior parte Bíblias, catecismos e hinários, foram impressos no exterior, principalmente na Grã-Bretanha, e quando chegavam em La Torre , o moderador tinha que assinar diante do revisor chefe um termo de compromisso de que esses livros não devessem ser vendidos, ou mesmo emprestados, para um católico romano [General Beckwith: his Life and Labours, & c. By J.P. Meille, Pastor of the Waldensian Church at Turin. P. 26. Lond., 1873].

Eles foram proibidos de evangelizar ou fazer conversões. Mas, apesar de algemados por um lado, eles não estavam protegidos por outro, pois os padres tinham plena liberdade para entrar nos seus vales, e fazer prosélitos; e se um menino de doze anos ou uma menina de dez professasse desejo de entrar na igreja romana, eles podiam ser tirados de seus pais, para poderem, com mais liberdade exercer a sua intenção. Eles não podiam se casar salvo com os de seu próprio povo. Eles não podiam erguer um templo salvo no solo do seu próprio território. Eles não podiam ter nenhum grau de instrução em qualquer das faculdades do Piemonte. Em suma, os deveres, direitos e privilégios que constituem a vida lhes foram negados. Eles foram reduzidos tanto quanto foi possível a uma simples existência, com esta única grande exceção — a qual foi concedida não como um direito, mas como um favor— ou seja, a liberdade de culto dentro de seus limites territoriais.

A Revolução de 1848, com o repique da trombeta, soou a derrubada de todas essas restrições. Elas caíram em um dia. O objetivo final da Providência em preservar esse povo durante longos séculos de tenebrosas perseguições agora passou a ser visto. A Igreja Valdense tornou-se a porta pela qual a liberdade de consciência entrou na Itália. Quando chegou a hora de elaborar uma nova constituição para o Piemonte, verificou-se necessário dar espaço permanente nessa constituição para os valdenses, e isso exigiu a introdução no edital do grande princípio da liberdade de culto como um direito. Os valdenses tinham batalhado por esse princípio por séculos — o tinham mantido e defendido pelo seu sofrimento e martírio; e por isso foi necessário a demanda, e o governo do Piemonte concedeu esse grande princípio. Foi a única das muitas novas constituições moldadas para a Itália na mesma época em que a liberdade de consciência foi promulgada. Agora ele teria encontrado um lugar na constituição do Piemonte, mas para a circunstância de que aqui estavam os valdenses, e que o seu grande princípio distintivo exigia o reconhecimento legal, caso contrário, ficaria de fora da Constituição. Os valdenses haviam lutado sozinhos a batalha, mas todos os seus conterrâneos compartilharam com eles os frutos da grande vitória. Quando a notícia do Statuto de Carlos Alberto chegou a La Torre havia saudações nas ruas, salmos nas igrejas, e fogueiras em chamas durante a noite no cume dos Alpes nevados.
Na porta de seus vales, com a lâmpada na mão, o óleo que não se acaba e sua luz que não se extingue, é vista, na época de 1848, a Igreja dos Alpes, preparada para obedecer à convocação de seu Rei celestial, que já passou por terremotos e tufões, derrubando os tronos antigos que a oprimiram, e abrindo as portas de sua antiga prisão. Ela agora vai adiante para ser "A Luz de toda a Itália" ["Totius Italiae lumen"], como o Dr. Gilly, trinta anos antes, havia predito que ela um dia iria se tornar. Felizmente nem toda a Itália ainda, mas somente o Piemonte, foi aberto para ela. Dirigiu-se com zelo ao trabalho de construir igrejas e formar congregações em Turim e em outras cidades do Piemonte. Por muito tempo estranho ao trabalho evangelístico, para a Igreja valdense havia tempo e oportunidade, portanto, de adquirir a coragem e hábitos mentais práticos necessários nas novas circunstâncias em que ela foi agora colocada. Ela preparou evangelistas, juntou fundos, organizou faculdades e congregações, e de várias outras formas aperfeiçoou sua estrutura em antecipação ao campo mais vasto que a Providência estava prestes a abrir para ela.

É agora o ano de 1859, e o drama que tinha parado desde 1849, mais uma vez começa a avançar. Nesse ano, a França declarou guerra contra a ocupação da Áustria na península italiana. A tempestade da batalha passou das margens do Po às do Adige, ao longo da planície da Lombardia, rápida, terrível e decisiva como as nuvens de trovão dos Alpes, e o recuo austríaco diante do exército vitorioso dos franceses. O sangue das três grandes batalhas da campanha estava quase seco e a Lombardia austríaca, Modena, Parma, Toscana, e parte dos Estados Pontifícios, tinham sido anexados ao Piemonte, e seus habitantes se tornaram concidadãos dos valdenses. Com apenas uma pausa seguiu-se a brilhante campanha de Garibaldi na Sicília e Nápoles, e esses territórios ricos e amplos, também foram adicionados ao reino agora magnífico de Victor Emmanuel. Toda a Itália, dos Alpes até o Etna, exceto os "Estados da Igreja", agora se tornou o campo da Igreja valdense. Nem era esse campo no final do drama. Mais dez anos passaram e a França novamente enviou seus exércitos para a batalha, acreditando que poderia alcançar a vitória como dantes. O resultado da breve, mas terrível campanha de 1870, em que o império francês desapareceu e o alemão surgiu, foi a abertura das portas de Roma. E observemos — pois neste incidente ouvimos a voz de dez séculos — na primeira fila dos soldados, cujo tiro de canhão explodiu nos velhos portais, entrou um colportor valdense com um feixe de Bíblias. Os valdenses agora acenderam a sua lâmpada em Roma, e o objetivo de todos os tempos é revelado!

CASSELL AND COMPANY, LIMITED,
BELLE SAUVAGE WORKS,
LONDON

Traduzido por Edimilson de Deus Teixeira
Fonte: Providence Baptist Ministries

História dos Valdenses:
Prefécio e Introdução
Capítulo 1:
Os Valdenses, seus Vales
Capítulo 2:
Os Valdenses, suas Missões e Martírios
Capítulo 3:
Suas Primeiras Perseguições
Capítulo 4:
A Expedição de Cataneo Contra os Crentes do Dauphine e Piemonte

Capítulo 5:
O Fracasso da Expedição de Cataneo
Capítulo 6:
Sínodo nos Vales Valdenses
Capítulo 7:
Perseguições e Martírios
Capítulo 8:
Preparativos para Uma Guerra de Extermínio

Capítulo 9:
A Grande Campanha de 1561
Capítulo 10:
Colônias Valdenses na Calábria e Apúlia
Capítulo 11:
Extinção dos Valndenses na Calábria
Capítulo 12:
O Ano da Praga
Capítulo 13:
O Grande Massacre
Capítulo 14:
Façanhas de Gianavello - Massacre e Pilhagem em Rora
Capítulo 15:
O Exílio
Capítulo 16:
O Retorno aos Vales

Capítulo 17:
Restabelecimento Final nos Vales


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