A HISTÓRIA DOS VALDENSES

Por J. A. Wylie (1808-1890)
London: Cassell and Company, 1860

CAPÍTULO 12 

O ANO DA PRAGA

Paz  Reocupação de suas casas  Fome Parcial – Contribuições das Igrejas Estrangeiras – Castrocaro, Governador do Vales – Suas traições e opressões – Carta do Eleitor Palatino ao Duque – Uma voz se levanta pela tolerância – O Destino de Castrocaro – A praga – Terrível Assolação – Dez mil mortes – Somente dois Pastores Sobrevivem  Ministros vêm da Suíça e outros lugares – Adoração conduzida doravante em francês
 


Quase um século inteiro passou entre o fim da Igreja na Calábria e a próxima grande perseguição desse venerável povo cuja trágica história estamos a registrar. Podemos abordar somente o mais proeminente dos eventos que preenchem o intervalo.

A guerra que La Trinita, de forma inglória travou contra os valdenses, terminou, como vimos, em um tratado de paz, que foi assinado em Cavour em cinco de junho de 1561, entre Filipe de Sabóia e os representantes dos Vales. Mas, embora a nuvem tenha passado, ela havia deixado numerosos e comoventes memoriais da desolação que tinha infligido. Os moradores desceram das montanhas para trocar as armas de guerra pela pá e a enchada. Com passos lentos e fracos os idosos e os doentes desceram para os vales, para se sentar mais uma vez ao meio-dia ou ao anoitecer sob a sombra das suas vinhas e castanheiros ancestrais. Mas, que pena! Quantas vezes as lágrimas de tristeza umedeceram os olhos ao marcar a desolação e ruína que deformou as cenas tão belas e sorridentes ultimamente! As árvores frutíferas cortadas; vinhas do campo e milharais estragados; aldeias queimadas; vilarejos, em alguns casos, um montão de ruínas, todos testemunhavam a raiva do inimigo que havia invadido suas terras. Anos devem passar antes que estas cicatrizes profundas possam ser apagadas e a beleza de seus vales possa ser restaurada. E ainda havia tristezas pesando sobre eles. Quantos que estavam ali que tinham vivido sob o mesmo teto de árvore com eles, e se juntavam na noite e na manhã do mesmo salmo, que nunca mais voltariam!

Angústia, com a chegada da fome, começou a invadir os vales. Sete meses de luta incessante os tinham deixado sem tempo para cultivar os campos, e agora o estoque de provisões do ano passado, estava exaurido, e a fome olhava-os no rosto. Antes do tratado de paz ser assinado, a época de semeadura tinha passado, e quando o outono chegou não havia quase nada para colher. Sua penúria foi agravada pelos fugitivos da Calábria, que começaram nessa época a chegar nos vales. Escapando sem nada, apenas com suas vidas, eles chegavam famintos e quase nus. Seus irmãos abriram os braços para recebê-los, e apesar de suas próprias necessidades serem grandes, compartilharam com eles o pouco que tinham.

O sofrimento que agora prevalecia nos Vales era conhecido em outros países, e evocou a simpatia de seus irmãos protestantes. Calvino, com prontidão e ardor característico, procurou ajudá-los. Por seu conselho mandou representantes para apresentar o seu caso nas Igrejas protestantes no exterior, e fazer coletas para eles, em Genebra, França, Suíça e Alemanha. As inscrições foram chefiadas pelo Eleitor Palatino, depois veio a do Duque de Wurtemburg, de Berna, a Igreja em Estrasburgo, e outros.

Mais tarde, o tempo de semear e colher foi restaurado nos Vales; chalés sorridentes começaram novamente a permear os lados de suas montanhas, e aumentar as margens de suas torrentes, e as misérias que a campanha de La Trinita tinha aplicado sobre deles estava passando para o esquecimento, quando os seus vexames foram renovados com a nomeação de um vice-governador de seus vales, Castrocaro, um toscano de nascimento.
Este homem tinha servido contra os valdenses como um coronel da milícia sob o comando de La Trinita, ele tinha sido feito prisioneiro em uma batalha com eles, mas foi honrosamente tratado, e enfim, generosamente liberado. Ele pagou aos valdenses o bem com o mal. Sua nomeação como governador dos Vales se devia principalmente à sua familiaridade com a Duquesa Margaret, a protetora dos valdenses, em favor de quem ele insinuou professar uma afeição calorosa pelos homens dos Vales, e sua amizade com o Arcebispo de Turim, a quem ele havia se comprometido a fazer o seu melhor para converter os valdenses ao romanismo. Quando finalmente chegou nos Vales como governador, ele esqueceu suas considerações para com a duquesa, mas fielmente buscou cumprir a promessa que fizera ao arcebispo.

O novo governador começou a restringir as liberdades garantidas às Igrejas no tratado de paz; depois determinou a suspensão de certos pastores e congregações, quando se recusaram a cumprir, ele começou a multar e prender os insurgentes. Ele enviou relatórios falsos e caluniosos à corte do duque, e introduziu uma tropa de soldados na região, a pretexto de que os valdenses estavam irrompendo em rebelião. Ele construiu a fortaleza de Miraboue, no sopé do Col de la Croix, no desfiladeiro estreito que conduz a partir de Bobbio para a França, para fechar esta porta de saída do seu território, e intimidar o Vale de Lucerna. Ameaçou recomeçar a guerra do passado a menos que os valdenses cumprissem os seus desejos.

O que podia ser feito? Eles levaram suas queixas e protestos a Turim, mas, que lástima! Os ouvidos do duque e da duquesa tinham sido envenenados pela malícia e artífios do governador. Logo, mais uma vez, a velha alternativa seria apresentada a eles, a missa ou a morte [Muston, cap. 16. Monastier, cap. 21].

Eles então pediram a ajuda dos príncipes protestantes da Alemanha. O grito dos Alpes encontrou uma resposta nas planícies alemãs. Os grandes chefes protestantes da Pátria, em especial Frederico, Eleitor Palatino, viu nesses pobres pastores oprimidos e seus vinhateiros como irmãos, e com zelo e carinho abraçaram sua causa. Ele enviaram uma carta ao duque,  distinguindo sua elevação de sentimentos, bem como a catolicidade da sua posição. Em uma nobre defesa dos direitos da consciência, e uma eloquente articulação em nome da tolerância. "Sua alteza", diz o eleitor, "sabemos que há um Deus no céu, que não somente contempla as ações, mas também prova os corações e reinos dos homens, e de quem nada está escondido. Sua alteza não tome decisão de voluntariamente fazer guerra contra Deus, e não persiga Cristo nos seus membros. ... Perseguição, aliás, nunca vai avançar a causa que pretende defender. As cinzas dos mártires é a semente da Igreja Cristã. Pois a igreja se assemelha com a folha da palmeira, cujo caule só atira para cima o maior peso que está pendurado sobre ele. Sua alteza considere que a religião cristã foi estabelecida pela persuasão e não pela violência; e como é certo que a religião não é outra coisa do que uma convicção firme e iluminada de Deus, e de sua vontade, como revelado em sua Palavra, e gravada nos corações dos fiéis por seu Santo Espírito, não pode, quando uma vez enraizada, ser arrancada por tortura" [Leger, Parte I., pp 41-5]. Assim o Eleitor Palatino alerta o duque.

Estas são palavras notáveis quando pensamos que foram escritas em meados do século XVI. Nós questionamos se a nossa própria era poderia expressar-se mais justamente sobre o tema dos direitos da consciência, a espiritualidade da religião, e a má política, bem como a criminalidade e perseguição. Às vezes pedimos desculpas pelos atos cruéis da Espanha e França, no terreno da intolerância e da cegueira daquela era. Mas seis anos antes do Massacre de São Bartolomeu, esta grande voz tinha sido levantada na cristandade pela tolerância.

O efeito que teve esta carta sobre o duque, certamente não sabemos, mas de Castrocaro sabemos que moderou sua violência, embora ele ainda continuasse em intervalos a aterrorizar o povo pobre que tão vilmente oprimia pelas ameaças mais atrozes. Com a morte de Emanuel Philibert, em 1580, a vilania do governador veio à luz. O jovem Duque Carlos Emanuel ordenou sua prisão, mas a sua execução era uma questão dificil, pois Castrocaro tinha se entrincheirado-se no Castelo de La Torre, e cercado-se de um bando de facínoras, que ele tinha aliciado, para sua maior defesa, ainda tinha um bando de ferozes cães de caça de tamanho incomum e força [Muston, p. 98]. Um capitão da sua guarda o traiu, e assim como ele alcançou seu posto por traição, dessa maneira, a traição foi o seu castigo no fim, ao alcançá-lo. Ele foi levado para Turim, onde morreu na prisão [Monastier, p. 222].

Fome, a perseguição, a guerra, todos os três, às vezes em sucessão e, por vezes juntos, tinham afligido a este povo tão duradouro, mas agora estavam a ser visitados pela peste. Por alguns anos eles tinham desfrutado de uma paz incomum, e essa paz foi mais notável na medida em que todas as suas montanhas ao redor da Europa estavam em combustão. Seus irmãos da Igreja Reformada da França, Espanha e Itália, estavam caindo no campo, perecendo pelo massacre, ou morrendo na fogueira, enquanto eles estavam guardados do mal. Mas agora uma nova calamidade trazia tristeza e luto aos seus vales. Na manhã do dia 23 de agosto de 1629, uma nuvem de escuridão incomum cobriu a cúpula do Cod Julien. Ela estourou em uma tromba d'água ou dilúvio. As torrentes rolaram montanha abaixo em ambos os lados, e as aldeias de Bobbio e Prali, situadas uma no sul e o outra no vale do norte, foram tomadas pela inundação súbita. Muitas das casas foram arrastadas, e os moradores tiveram pouco tempo para salvar suas vidas. Em setembro do mesmo ano, veio um vento gelado, acompanhado por uma nuvem seca, que feriu seus vales e destruiu a cultura do castanheiro. Seguiu-se um segundo dilúvio de chuva, que arruinou totalmente a vindima. Estas calamidades foram mais graves na medida em que era um ano de fome parcial. Os pastores valdenses reunidos em sínodo solene, humilharam-se e levantaram suas vozes em oração a Deus. Mal podiam eles imaginar que, naquele momento, uma calamidade ainda mais pesada pairava sobre eles, e que esta era a última vez que eles se encontravam sobre a terra [Muston, p. 111].

Em 1630, um exército francês, sob comando do marechal Schomberg, repentinamente ocupou os vales. Nesse exército estavam muitos voluntários, que tinham conseguido escapar de uma doença contagiosa que rebentava na França. O tempo estava quente, e as sementes da pestilência que o exército tinha trazido com ele rapidamente se desenvolveram. A praga se mostrou na primeira semana de maio, no Vale de Perosa, que logo eclodiu, no vale mais ao norte de San Martino, e logo se espalhou por todo os vales. Os pastores se reuniram para suplicar ao Todo-Poderoso, e tomar medidas práticas de concerto para verificar os estragos desta praga misteriosa e terrível. Eles compraram remédios e provisões recolhidas para os pobres [Monastier, p. 241]. Eles visitaram os doentes, consolaram os moribundos, e pregaram ao ar livre para uma multidão solene e ansiosa para ouvir.
 
Em julho e agosto o calor era excessivo, e a doença assola ainda mais furiosa. No mês de julho, quatro pastores foram levados pela praga, em agosto sete morreram, e no mês seguinte doze foram mortalmente feridos. Restavam agora apenas três pastores, e notou-se que eles pertenciam a três vales - Lucerna, Martino e Perosa. Os três sobreviventes reuniram-se nas alturas de Angrogna, para consultar com os representantes das várias aldeias sobre os meios de prover à celebração de culto. Eles escreveram para Genebra e Dauphine solicitando se pastores pudessem ser enviados para suprir o lugar daqueles a quem a praga havia abatido, assim, a venerável Igreja dos Vales, que tinha sobrevivido a tantas calamidades, não poderia ser extinta. Eles também lembraram de Antoine Leger de Constantinopla [Muston, p. 112-3. Antoine Leger era tio do historiador. Ele havia sido professor durante muitos anos na família do embaixador da Holanda em Constantinopla].
 
A praga diminuiu durante o inverno, mas na Primavera (1631) levantou-se novamente com força renovada. Dos três pastores sobreviventes, um morreu, deixando, assim, apenas dois, Pierre Gilles de Lucerna, e Gross Valério de Martino. Com os calores de verão a peste aumentou em força. Exércitos, indo e vindo nos vales, sofriam igualmente com os habitantes. Cavaleiros eram vistos caindo da montaria sobre a estrada, tomados com doença súbita. Soldados e camponeses, golpeados no caminho, eram deixados ali infectando o ar com seus corpos. Em La Torre cinquenta famílias foram extintas. A estimativa mais moderada dos números da praga é de dez mil mortes, ou de metade a dois terços de toda a população dos Vales. O milho em muitos locais permaneceu sem cortes, as uvas igualmente apodreceram no ramo, e os frutos caíram das árvores. Estrangeiros que tinham vindo a encontrar a saúde no ar puro da montanha conseguiram a partir do solo nada mas do que uma sepultura. Cidades e aldeias, que tinham há pouco os sons da sua atividades, estavam agora em silêncio. Pais estavam sem filhos e filhos sem pais. Patriarcas, que tinham se acostumado com orgulho e alegria de reunir em torno deles os seus netos numerosos, os viam adoecer e morrer, e agora estavam sozinhos. O venerável pastor Gilles perdeu seus quatro filhos mais velhos. Apesar de constantemente presente nas casas dos atingidos, e à beira do leito do moribundo, ele próprio foi poupado para compilar os monumentos de sua antiga Igreja, e narrar, entre outras desgraças que tinham acabado de passar pela sua terra natal, e "do que ela tinha sido".

Dos pastores valdenses agora apenas dois restaram, e aceleraram a vinda de ministros de Genebra e de outros lugares para os vales, para que a velha lâmpada não se apagasse. Os serviços da Igreja valdense haviam sido realizados até agora na língua italiana, mas os novos pastores falavam apenas em francês. O culto foi realizado doravante nessa língua, mas os valdenses logo vieram a se lembrar da sua própria língua antiga, um dialeto entre o francês e o italiano. Outra mudança introduzida neste momento era a assimilação dos seus rituais para o de Genebra. E ainda, o nome primitivo e carinhoso de  “barba” foi abandonado, e o título moderno substituído, “Monsieur le Ministre” [Monastier, cap. 18. Muston, p. 242-3].


Traduzido por Edimilson de Deus Teixeira
Fonte:  Providence Baptist Ministries

A História dos Valdenses:
Prefécio e Introdução
Capítulo 1:
Os Valdenses, seus Vales
Capítulo 2:
Os Valdenses, suas Missões e Martírios
Capítulo 3:
Suas Primeiras Perseguições
Capítulo 4:
A Expedição de Cataneo contra os Crentes do Deuphine e Piemonte
Capítulo 5:
O Fracasso da Expedição de Cataneo
Capítulo 6:
Sínodo nos Vales
Capítulo 7:
Perseguições e Martírios
Capítulo 8:
Preparativos para Uma Guerra de Extermínio
Capítulo 9:
A Grande Campanha de 1561
Capítulo 10:
Colônias Valdenses na Calábria e Apúlia

Capítulo 11:
Extinção dos Valndenses na Calábria
Capítulo 13:
O Grande Massacre
Capítulo 14:
Façanhas de Gianavello - Massacre e Pilhagem em Rora

Capítulo 15:
O Exílio
Capítulo 16:
O Retorno aos Vales
Capítulo 17:
Restabelecimento Final nos Vales

Último Capítulo:
As Condições dos Valdenses desde 1690


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