A HISTÓRIA DOS VALDENSES

Por J. A. Wylie (1808-1890)
London: Cassell and Company, 1860

CAPÍTULO 7

PERSEGUIÇÕES E MARTÍRIOS

Uma paz de vinte e oito anos — Estado florescente — Bersour — Um mártir — Martírio do Pastor Gonin — Martírios de um estudante e um monge — Julgamento e queima de um colportor — Uma lista de mortes horríveis — Os vales sob a influência da França — Restaurada à casa de Sabóia — Emmanuel Philibert — Perseguição renovada — Carignano — Perseguição se aproximando das Montanhas — Representação ao Duque — As Veredas Antigas — Protesto junto ao Duque — Junto a Duquesa — Junto ao Conselho

A Igreja dos Alpes teve paz por vinte e oito anos. Esta foi uma época de prosperidade espiritual. Santuários surgiram em todos os seus vales, mas seus pastores e professores foram encontrados muito poucos, e os homens de aprendizagem e de zelo, alguns deles de terras estrangeiras, foram pressionados em seu serviço. Indivíduos e famílias nas cidades da planície do Piemonte abraçaram a fé, e as multidões que foram aos seus cultos foram crescendo continuamente. Membros [George Morel, conta em suas Memórias, que nesta época, havia mais de 800 mil pessoas da religião valdense. (Leger, Hist. Des Vaudois, Livr. II., P. 27.) ele inclui, naturalmente, nesta estimativa os valdenses nos vales, nas planícies do Piemonte, em Nápoles e Calábria, no sul da França, e nos países da Alemanha.] Em suma, esta venerável Igreja tinha uma segunda juventude. Sua lâmpada, acesa de novo, queimando com um brilho que justificou seu honrado lema, "A luz que brilha na escuridão". A escuridão não era agora tão profunda como tinha sido; as horas da noite estavam chegando ao fim. Também não era a comunidade valdense a única luz que agora brilhava na cristandade. Era uma constelação de luzes, cujo brilho estava começando a irradiar pelos céus da Igreja com um brilho que nas eras antigas não tinha conhecido.

A isenção de perseguição, que os valdenses apreciaram durante este período, não era absoluta, mas relativa. Pessoas mornas raramente são molestadas; e o zelo fervoroso dos valdenses trouxe com ele um reavivamento da malignidade do perseguidor, apesar de não encontrar vazão na tão terrível violência como as tempestades que haviam recentemente os derrotado. Apenas dois anos após o sínodo, ou seja, em 1534 - a destruição indiscriminada caiu sobre as Igrejas Valdenses de Provence; mas a triste história de sua extinção será mais apropriadamente narrada em outro lugar. Nos vales do Piemonte eventos de tempos em tempos ocorriam mostrando que a vingança do inquisidor tinha sido ferida levemente, não morta. Enquanto os valdenses como uma raça eram prósperos, suas igrejas se multiplicando, e sua fé ampliando sua área geográfica de um ano para outro, individualmente estavam sendo às vezes presos e colocados à morte na fogueira, na estaca, na roda ou na forca.

Três anos depois, a perseguição começou de novo, e durou pouco tempo. Carlos III de Sabóia, um príncipe de comportamento gentil, mas sob o domínio dos sacerdotes, sendo solicitado pelo Arcebispo de Turim e pelo inquisidor da mesma cidade, deu seu consentimento para "caçar os hereges dos vales". A missão foi entregue a um nobre de nome Bersour, cuja residência estava em Pinerolo, perto da entrada do Vale de Perosa. Bersour, um homem de disposição selvagem, reuniu uma tropa de 500 cavalos e a pé, e atacou o vale de Angrogna. Ele foi repelido, mas a tempestade que rolou pelas montanhas caiu sobre a planície. Se voltando aos valdenses que residiam em torno de sua própria residência, ele capturou um grande número de pessoas, as jogou em prisões e conventos de Pinerolo e da Inquisição de Turim. Muitos deles sofreram nas chamas. Um desses mártires, Catalan Girard, curiosamente ensinou aos espectadores uma lição em forma de parábola, ao pé da pilha de lenha. De entre as chamas, ele pediu duas pedras, que foram imediatamente trazidas. A multidão olhou em silêncio, curiosa para saber o que ele pretendia fazer com elas. Esfregando-as uma contra a outra, ele disse: "Vocês pensam que vão extinguir nossas pobres Igrejas pelas suas perseguições. Mas vocês não podem fazer mais do isso, do que eu com minhas frágeis mãos tentar esmagar essas pedras" [Leger, Livr. ii., p. 27].

Tempestades mais pesadas pareciam prestes a descer, quando de repente o céu limpou acima dos confessores dos Alpes. Foi uma mudança na política da Europa, neste caso, como em muitos outros, que retardou o exército perseguidor. Francisco I da França exigiu de Carlos, duque de Sabóia, a permissão para marchar com um exército através de seus domínios. O objetivo do rei francês era a recuperação do Ducado de Milão, um prêmio muito concorrido entre ele e Carlos V. O Duque de Sabóia indeferiu o pedido de seu irmão monarca, mas refletindo que as passagens dos Alpes estavam nas mãos dos homens a quem ele estava perseguindo, e que ele deveria continuar sua opressão, pois os valdenses poderiam abrir as portas do seu reino para o inimigo, enviou ordens para Bersour para parar a perseguição nos vales.

Em 1536, a Igreja valdense lamentou a perda de um dos seus mais ilustres pastores. Martin Gonin, de Angrogna, um homem de espírito notório e raros dons, tinha ido a Genebra, em assuntos eclesiásticos e estava retornando através do Dauphine, quando foi detido por suspeita de ser um espião. Ele livrou-se dessa acusação, mas o carcereiro investigando sua pessoa descobriu certas coisas sobre dele, sendo então condenado por aquilo que para o Parlamento de Grenoble representava um crime muito maior - heresia. Condenado à morte, ele foi levado durante a noite e afogado no rio Isere. Era para ele ter sofrido na estaca, mas seus perseguidores temiam o efeito de suas palavras antes de morrer sobre os espectadores [Monastier, p. 153]. 

Havia outros, também chamados a subir na pira mártir, cujos nomes não podemos passar em silêncio. Dois pastores voltando de Genebra para os seus rebanhos nos vales, em companhia de três protestantes franceses, foram presos em Col de Tamiers, em Sabóia, e levados para Chambery. Todos foram julgados, condenados e queimados. O destino de Nicolas Sartoire é ainda mais comovente. Ele era um estudante de teologia em Genebra, e era um dos que tinham bolsas de estudo que os senhores de Berna tinham concedido para a formação de jovens como pastores das Igrejas dos Vales. Ele saiu para passar as férias com sua família no Piemonte. Sabemos como os valdenses de coração ansiavam por suas montanhas nativas; a expectativa da vinda do jovem despertaria mais a animada recepção por parte de seus amigos. A soleira paternal, que pena! Ele jamais cruzaria os vales até lá, não pisaria mais no seu vale. Viajando pela passagem de São Bernardo e o grande vale de Aosta, ele tinha acabado de passar a fronteira italiana, quando foi detido por suspeita de heresia. Era o mês de maio, quando tudo estava vivo e belo nos vales e montanhas ao redor dele; ele mesmo estava na primavera da existência; foi difícil sacrificar a vida naquele momento, mas o grande capitão cujos pés ele tinha acabado de chegar, havia lhe ensinado que o primeiro dever de um soldado de Cristo é a obediência. Ele confessou o seu Senhor, nem poderia promessas ou ameaças - e por ambos foi tentado, o fez vacilar. Ele continuou firme até o fim, e em quatro de maio de 1557, foi trazido de sua prisão em Aosta, e queimado vivo [Leger, Livr. ii., p. 29].

O mártir que morreu heroicamente em Aosta era um jovem, agora o que estamos a considerar era um homem de cinquenta anos. Geofroi Varaile era um nativo da cidade de Busco, no Piemonte. Seu pai tinha sido capitão de um exército de assassinos que, em 1488, devastou os vales de Lucerna e Angrogna. O filho, em 1520 tornou-se monge, e possuindo o dom de uma rara eloquência, foi enviado em uma viagem de pregação, em companhia de outro eclesiástico encapuzado, ainda mais famoso, Bernardo Ochino de Sienna, o fundador da ordem dos capuchinhos. A razão desse homem ter sido enviado foi para reconverter um assustado Varaile. Ele fugiu para Genebra, e na cidade dos reformadores foi ensinado de forma mais completa o "caminho da vida". Ordenado como pastor, ele retornou para os vales, onde "como um outro Paulo", diz Leger, "pregou a fé que uma vez destruía". Depois de um ministério de alguns meses, ele partiu para uma visita de poucos dias a sua cidade natal de Busco. Ele foi detido pelos monges que estavam de emboscada. Ele foi condenado à morte pela Inquisição de Turim. Sua execução teve lugar na praça do castelo da mesma cidade em 29 março de 1558. Ele caminhou até o lugar onde seria executado com passo firme e um semblante sereno; discursou para a grande multidão ao redor de sua pilha lenha de forma que arrancou lágrimas dos olhos de muitos; depois disso, começou a cantar em voz alta, e assim continuou até ser consumido em meio as chamas [Leger, Livr. II., p. 29].
Dois anos antes disso, na mesma praça, o pátio do castelo em Turim tinha assistido a um espetáculo similar. Barthelemy Hector era um livreiro em Poitiers. Um homem de temperamento forte, mas bem-humorado, ele viajou até os vales, difundindo que o conhecimento o fez sábio para a salvação. No conjunto de cumes brancos olhando para baixo na Pra del Tor é chamado La Vechera, assim chamado porque as vacas amam a grama rica que vestem os seus lados no verão. Barthelemy Hector tomava o seu lugar nas encostas da montanha e reunia os pastores e agricultores de Pra Del Tor em volta dele, os convencendo a comprar seus livros, pela leitura de passagens para eles. Porções das Escrituras também que ele recitava para senhoras e donzelas enquanto elas observavam as suas cabras, ou trabalhavam na roca. Seus passos foram seguidos pelo inquisidor, mesmo em meio a essas solidões selvagens. Ele foi levado para Turim, para responder pelo crime de venda de livros de Genebra. Sua defesa diante dos juízes mostrou uma admirável coragem e sabedoria.


"Você foi pego no ato", disse o juiz, "de venda de livros que contêm heresia. O que você diz?"

"Se a Bíblia é uma heresia para você, é a verdade para mim", respondeu o prisioneiro.

"Mas você usa a Bíblia para dissuadir os homens a não ir à missa", ressaltou o juiz.

"Se a Bíblia dissuade os homens a não ir à missa", respondeu Bartolomeu, "é uma prova de que Deus a desaprova, e que é idolatria".

O juiz, considerando pouco tempo para tirar uma confissão de tal herege, exclamou: “Recolher".


"Falei somente a verdade", disse o livreiro, "eu posso mudar a verdade como a veste que eu uso?" 

Os juízes o mantiveram alguns meses na prisão, na esperança de que sua retratação o poupasse da fogueira. Esta falta de vontade de recorrer a este tipo de condenação não foi devido a algum sentimento de pena para com o preso, mas a convicção de que estas execuções repetidas poriam em risco a causa de sua Igreja. "A fumaça desses mártires nas estacas", como foi dito em referência à morte de Patrick Hamilton, "infectou aqueles a quem ele falou". Mas a constância de Barthelemy obrigou seus perseguidores a ignorar estas considerações prudenciais. Por fim, desesperados por sua renúncia, eles o trouxeram e o lançaram às chamas. Seu comportamento na fogueira "derramou rios de lágrimas", diz Leger, "aos olhos de muitos na multidão papista em torno de sua estaca, enquanto outros lançavam acusações e injurias contra a crueldade dos monges e inquisidores” [Leger, Livr. Ii ., p. 28].

Estes são apenas alguns dos muitos mártires por quem, mesmo durante este período de relativa paz e prosperidade, a Igreja dos vales foi chamada para depor contra Roma. Alguns destes mártires morreram por métodos cruéis, bárbaros e horríveis. Citar todos estes casos estaria além do nosso propósito, e retratar os detalhes revoltantes e infames seria narrar o que nenhum leitor poderia suportar examinar. Citaremos apenas uma parte do resumo de Muston. "Não há nenhuma cidade no Piemonte", diz ele, "sob um pastor valdense, onde alguns de nossos irmãos não tenham sido condenados à morte ... Hugo Chiamps de Finestrelle teve suas entranhas arrancadas de seu corpo, ainda estando vivo, em Turim.
Peter Geymarali de Bobbio, da mesma forma, teve suas entranhas arrancadas em Lucerna, e um felino selvagem foi jogado onde estava a agonizar para torturá-lo ainda mais; Maria Romano foi enterrada viva em Rocco-patia; Magdalen Foulano sofreu o mesmo destino em San Giovanni; Susan Michelini foi amordaçada, a mão e o pé e deixada a perecer de fome e frio em Saracena. Bartolomeu Fache foi retalhado com sabres, teve os cortes preenchidos com cal virgem e morreu agonizando, em Fenile; Daniel Michelini teve sua língua arrancada em Bobbio ao tentar louvar a Deus. James Baridari morreu coberto de queimaduras sulfurosas, que tinham sido enfiadas na sua carne sob as unhas, entre os dedos, nas narinas, nos lábios, e sobre todo o seu corpo, e então queimado. Daniel Revelli teve sua boca enchida com pólvora, o qual sendo inflamada explodiu a sua cabeça em pedaços. Maria Monnen, presa em Liousa, teve a carne cortada de seu rosto e do osso do queixo, de modo que sua mandíbula foi deixada nua, e foi assim deixada até morrer. Paul Garnier foi lentamente cortado em pedaços em Rora. Thomas Margueti foi mutilado de uma forma indescritível em Miraboco, e Susan Jaquin cortado em pequenos pedaços em La Torre. Sara Rostagnol foi aberta das pernas ao peito, e assim deixada a morrer na estrada entre Eyral e Lucerna. Anne Charbonnier foi empalada e levada assim, em uma lança, como uma estátua, de San Giovanni a La Torre. Daniel Rambaud, em Paesano, teve as suas unhas arrancadas, em seguida, cortados os dedos, depois os pés e mãos, depois os braços e as pernas, assim, sucessivamente a cada parte cortada recusava de sua parte a abjurar o Evangelho" [Muston, Israel of the Alps, chap. 8.] Assim, o rol de mártires prosseguia, e a cada novo sofrimento vinham novos, mais excruciantes e mais horríveis modos de tortura e morte.

Já mencionamos a exigência que o rei da França fez ao Duque de Sabóia, Carlos III, que permitiria que ele marchasse com um exército através de seus territórios. A resposta foi uma recusa, mas Francisco I precisava ter uma estrada para a Itália. Assim ele tomou o Piemonte, e de posse dele, juntamente com os vales valdenses, durante vinte e três anos os valdenses estavam sob a influência de Francisco I, mais tolerante do que seus próprios príncipes; pois embora Francisco detestasse o luteranismo, as necessidades de sua política, muitas vezes o compelia a levar ao tribunal os luteranos, e assim aconteceu que, enquanto ele estava queimando hereges em Paris, ele os poupou nos vales. Mas a paz geral do Chateau Cambresis, em 3 de abril de 1559, restaurou o Piemonte, com exceção de Turim, aos seus antigos governantes da Casa de Sabóia [Leger, Livr. ii., p. 29.] na pessoa de Carlos III. Ele foi sucedido em 1553 por Emmanuel Philibert. Philibert foi um príncipe de talentos superiores e disposição bondosa, e os valdenses alimentavam a esperança de que com ele estariam autorizados a viver em paz, e adorar como seus pais haviam feito. O que reforçou essas expectativas foi o fato de que Philibert tinha casado com uma irmã do rei da França, Henrique II, que havia sido cuidadosamente instruída na fé protestante, por suas ilustres relações, Margaret, a rainha de Navarra, e Renee da França, filha de Luís XII. Mas, que pena! O tratado que restaurou Emmanuel Philibert ao trono de seus antepassados, continha uma cláusula obrigando as partes contratantes a extinguir a heresia. Esta foi enviada de volta para seus súditos com um punhal na mão.

Qualquer que fosse a inclinação do rei - e fortalecido pelos conselhos de sua rainha protestante, ele sem dúvida, se pudesse, teria tratado compassivamente seus súditos fiéis, os valdenses – mas suas intenções eram dominadas por homens de vontade forte e mais determinada resolução. Porém, os inquisidores do seu reino, o núncio do Papa, e os embaixadores da Espanha e França, uniram-se pedindo a purgação de seus domínios, nos termos do acordo do Tratado de Paz. O infeliz monarca, incapaz de resistir a essas fortes solicitações, emitiu em 15 de fevereiro de 1560, um decreto proibindo os seus súditos de ouvir os pregadores protestantes no Vale de Lucerna, ou em qualquer outro lugar, sob pena de uma multa de 100 dólares de ouro para a primeira infração, e de prisão perpétua para a segunda. Este edital se referia principalmente aos protestantes na planície do Piemonte, que iam em multidões para ouvir sermões nos vales. Seguiu-se, no entanto, em um curto espaço de tempo, um edito ainda mais severo, ordenando o comparecimento à missa sob pena de morte. Para realizar este cruel decreto, uma comissão foi entregue a um príncipe de sangue, Philip de Sabóia, Conde de Raconis, e com ele foi associado George Costa, Conde de la Trinita, e Thomas Jacomel, o Inquisidor-Geral, um homem tão cruel na disposição quanto o era licencioso nas atitudes. A estes foi adicionado um certo conselheiro Corbis, mas ele não era do tipo que a empreitada requeria, e assim, depois de assistir algumas cenas iniciais de barbárie e horror, ele renunciou a sua comissão [Monastier, cap. 19, p. 172. Muston, cap. 10, p. 52].


O primeiro estrondo da tempestade caiu sobre Carignano. Esta cidade repousa suavemente sobre um dos esporões dos apeninos, a cerca de vinte milhas a sudoeste de Turim. Ela continha muitos protestantes, alguns dos quais eram de boa posição. Os mais ricos foram selecionados e arrastados para a fogueira, a fim de espalhar o terror nos demais. O golpe não foi dado em vão, os que professavam o credo protestante em Carignano foram espalhados, alguns fugiram para Turim, então sob o domínio da França, alguns para outros lugares, e alguns, que lástima! Assustados com a tempestade a frente, voltaram e buscaram refúgio na escuridão atrás deles. Eles tinham desejado o "país melhor", mas não puderam entrar à custa do exílio e da morte.
Tendo feito o seu trabalho em Carignano, esta tempestade desoladora fez seu caminho através da planície do Piemonte, para aquelas grandes montanhas que eram a antiga fortaleza da verdade, marcando sua trajetória através das aldeias e comunidades do país pelo terror, pilhagem e sangue. Moveu-se como uma daquelas nuvens de trovões, que o viajante nos Alpes pode muitas vezes avistar, atravessando a mesma planície, e atirando seus relâmpagos em direção a terra à medida que avança. Onde quer que se soubesse que havia uma congregação valdense, para lá a nuvem de dirigia. E agora eis que aos pés do Alpes valdenses, na entrada dos vales, em poderosos baluartes naturais, uma multidão de fugitivos das cidades e aldeias da planície procuravam encontrar asilo.


Rumores sobre os confiscos, prisões, torturas cruéis, e horríveis mortes que tinham acontecido às Igrejas, aos pés de suas montanhas, precederam o aparecimento dos cruzados na entrada dos Vales. A mesma devastação que tinha acontecido nas florescentes igrejas nas planícies do Piemonte parecia pender sobre a Igreja no seio dos Alpes. Neste momento, os pastores e líderes leigos se reuniram para deliberar sobre as medidas a serem tomadas. Tendo jejuado e se humilhado diante de Deus, eles procuraram pela oração fervorosa a direção do Espírito Santo [Leger, Livr. ii., p. 29.] Eles resolveram se aproximar do trono de seu príncipe, e por humilde protesto e petição, estabelecer o estado de seus negócios e a justiça de sua causa. Sua primeira reivindicação era ser ouvido antes de ser condenado - um direito a ninguém negado, por mais que se fosse um criminoso. Em seguida, eles solenemente negaram a principal infração do qual eram acusados: o de afastamento da verdadeira fé, e da adoção de doutrinas desconhecidas às Escrituras, e dos primeiros séculos da Igreja. Sua fé foi a que Cristo havia ensinado, o que os apóstolos, depois do Grande Mestre, haviam pregado, o que os pais tinham vindicado com as suas penas, e os mártires, com seu sangue, e que os quatro primeiros concílios tinham ratificado e proclamado ser a fé do mundo cristão. Das "veredas antigas", a Bíblia e toda a antiguidade eram testemunhas que eles nunca se desviaram; de pai para filho tinham continuado por esses 1500 anos a andar nelas. Suas montanhas os blindaram das novidades; eles não se curvaram diante de deuses estranhos, e, se eles foram hereges, também foram os primeiros quatro concílios, e assim também foram os próprios apóstolos. Se erraram, foi na companhia dos confessores e dos mártires das primeiras eras. Eles estavam dispostos a qualquer momento apelar pela sua causa ao Conselho Geral, desde que o Conselho estivesse disposto a decidir a questão pela única norma infalível que conheciam: a Palavra de Deus. Se nesta prova eles fossem convencidos de uma heresia, de boa vontade eles renunciariam. Por isso, diante do principal ponto de acusação, o que mais eles poderiam prometer? Mostra-nos, eles disseram, quais são os erros e o que nos pedir para renunciar sob pena de morte, e você não precisa pedir uma segunda vez.

["Primeiro, fazemos protesto perante o Todo-Poderoso e Todo- justo Deus, diante de cujo tribunal devemos todos os um dia comparecer, que pretendemos viver e morrer na santa fé, piedade e religião de nosso Senhor Jesus Cristo, e que abominamos todas as heresias que foram, e são condenadas pela Palavra de Deus. Abraçamos a mais sagrada doutrina dos profetas e apóstolos, como também os credo de Nicéia e de Atanásio; subscrevemos os quatro Concílios e a todos os antigos pais, em todas as coisas como não sendo repugnantes à analogia da fé". (Leger, Livr. Ii. Pp. 30-1).]

Seu dever para com Deus não enfraqueceu a sua fidelidade a seu príncipe. A piedade eles acrescentaram a lealdade. O trono diante do qual eles estavam agora não tinha mais fiéis e dedicados súditos do que eles. Quando eles tinham traçado uma traição, ou contestado o comando legal de sua soberania? Sem dúvida, quanto mais temiam a Deus, mais honravam ao rei. Seus serviços, sua essência, sua vida, tudo estava à disposição do seu príncipe, pois eles estavam dispostos a colocar tudo sob a defesa da sua prerrogativa legal, apenas uma única coisa que eles não poderiam entregar – sua consciência.

Em relação aos seus confrades romanistas – súditos do Piemonte, viviam em boa vizinhança com eles. Quem eles feriram – de quem eles roubaram as propriedades – quem eles enganaram com suas barganhas? Não eram amáveis, corteses, honestos? Se os seus montes competiam em fertilidade com a naturalmente rica planície aos seus pés, e se as suas casas nas montanhas eram cheias de estoques de milho, azeite e vinho, nem sempre encontrada em casas do Piemonte, em que a estas foi devido, salvo à sua indústria superior, frugalidade e habilidade? Nunca fizeram expedição de saqueadores descendo de seus montes para levar as mercadorias de seus vizinhos, ou para infligir retaliações aos muitos assassinatos e roubos a que tiveram de submeter-se. Por que, então os seus vizinhos se levantavam contra eles para exterminá-los, como se fossem um bando de malfeitores, em cuja vizinhança ninguém podia viver em paz, e porque o seu soberano deve desembainhar sua espada contra aqueles que nunca tinham perturbado o seu reino, nem conspirado contra o seu governo, mas que, ao contrário, tinham se esforçado para manter a autoridade sua de direito, e a honra de seu trono? "Uma coisa é certa, ó mais sereno príncipe", disseram, em conclusão, que "a Palavra de Deus não vai perecer, mas permanecerá para sempre. Se, então, nossa religião é a pura Palavra de Deus, como estamos persuadidos que é, e não uma invenção humana, nenhum poder humano será capaz de aboli-la" [ver Leger (ii livr.., Pp. 30-1) a petição dos valdenses apresentada em: "Au Serenissime et tres-Puissant Prince, Philibert Emmanuel, Due de Savoye, Prince de Piemont, notre tres-Clement Seigneur" (Para o sereno e mais poderoso príncipe, Emmanuel Filiberto, duque de Sabóia, Príncipe do Piemonte, nosso Gracioso Senhor).]


Nunca houve mais solene, ou mais justo, ou um protesto mais respeitoso apresentados a qualquer trono. O mal feito sobre eles foi enorme, mas nenhuma palavra de raiva, nem uma única sentença acusadora os valdenses se permitiram pronunciar. Mas, o que aproveitou este protesto solene, esta reivindicação triunfante? O mais completo e conclusivo é a evidência, da imensa injustiça e flagrante criminalidade da Casa de Sabóia. Quanto mais os valdenses colocavam-se no lado correto, quanto mais eles colocavam a Igreja de Roma no errado, e eles que já os condenaram a perecer estavam mais firmemente determinados a realizar o seu propósito.
Este documento foi acompanhado por outros dois: um para a rainha, e um para o Conselho. O que foi para a rainha foi concebido diferentemente do que ao duque. Eles não oferecem nenhuma defesa para a sua fé: a própria rainha o era. Aludem em alguns termos tocantes aos sofrimentos que já tinham sido submetidos e a maiores ainda que pareciam estar por vir. Isso foi o suficiente, eles sabiam que para despertar todas as suas simpatias, e alistá-la como sua advogada junto ao rei, a exemplo de Ester, e outras mulheres nobres nos tempos antigos, que valorizavam menos as suas nobres posições para a sua honra deslumbrante, do que as oportunidades que lhes deram de proteger os perseguidos confessores da verdade. [Ver em Leger (ii livr.., P. 32), "A la tres-Vertueuse et tres Excellente-Dame, Madame Marguerite de France, Duchesse de Savoye et de Berry" - "a petição de seus pobres e humildes súditos, os habitantes dos Vales de Lucerna e Angrogna e Perosa e San Martino, e todos os da planície que se chamam apenas sobre o nome do Senhor Jesus ".


O protesto apresentado ao Conselho foi redigido em termos mais simples e diretos, mas ainda respeitoso. Eles ofereceram aos conselheiros do rei o cuidado com que eles o elaboraram; advertia que cada gota de sangue inocente derramado eles teriam um dia que dar conta, que o sangue de Abel, ainda que apenas de um homem, exclamou com uma voz tão alta que Deus o ouviu nos céus, e desceu para chamar quem o derramou para prestar contas; quanto mais forte o grito que surgiria a partir do sangue de toda uma nação, e quanto mais terrível a vingança com a qual seria visitada! Em suma, eles recordaram ao Conselho que o que eles pediam não era um privilégio desconhecido no Piemonte, nem seriam as primeiras ou as únicas pessoas que desfrutariam da indulgência se ela fosse estendida a eles. Os judeus e os sarracenos não viviam sem serem molestados nas suas cidades? Eles não permitiam ao israelita construir a sua sinagoga e o mouro ler o Corão, sem incômodo ou restrição? Foi uma grande coisa que a fé da Bíblia fosse colocada no mesmo nível nesta consideração com a do Islã, e que os descendentes dos homens que por gerações foram súditos da Casa de Sabóia, e que enriqueceram os domínios com as suas virtudes e os defenderam com seu sangue, devessem ser tratados com a mesma humanidade que foi mostrada para o estrangeiro e o descrente?
Estas petições os confessores dos Alpes expediram, e tendo feito isso, eles esperaram uma resposta com os olhos fitos no céu. Se essa resposta fosse a paz, com a gratidão a Deus e ao seu príncipe eles exaltariam! Se fosse de outro modo, eles estavam prontos para aceitar essa alternativa também; eles estavam preparados para morrer.

Traduzido por Edimilson de Deus Teixeira
Fonte:  Providence Baptist Ministries


A História dos Valdenses:
Prefécio e Introdução
Capítulo 1:
Os Valdenses, seus Vales
Capítulo 2:
Os Valdenses, suas Missões e Martírios
Capítulo 3:
Suas Primeiras Perseguições
Capítulo 4:
A Expedição de Cataneo contra os Crentes do Deuphine e Piemonte
Capítulo 5:
O Fracasso da Expedição de Cataneo
Capítulo 6:
Sínodo nos Vales Valdenses

Capítulo 8:
Preparativos para Uma Guerra de Extermínio
Capítulo 9:
A Grande Campanha de 1561
Capítulo 10:
Colônias Valdenses na Calábria e Apúlia
Capítulo 11:
Extinção dos Valndenses na Calábria
Capítulo 12:
O Ano da Praga
Capítulo 13:
O Grande Massacre
Capítulo 14:
Façanhas de Gianavello - Massacre e Pilhagem em Rora

Capítulo 15:
O Exílio
Capítulo 16:
O Retorno aos Vales
Capítulo 17:
Restabelecimento Final nos Vales

Último Capítulo:
As Condições dos Valdenses desde 1690

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