A HISTÓRIA DOS VALDENSES

Por J. A. Wylie (1808-1890)
London: Cassell and Company, 1860

CAPÍTULO 5

FRACASSO DA EXPEDIÇÃO DE CATANEO

O Vale de Angrogna – Uma Alternativa – Os valdenses se preparam para a batalha – A repulsa de Cataneo – Sua ira – Sua nova tentativa – A entrada em Angrogna com seu exército – Avanços a barreira – Entrada no Abismo – Os valdenses a ponto de serem feitos em pedaços – A Montanha coberta de névoa – Libertação – Derrota total do exército do Papa – O poço de Saquet – Sofrimentos dos valdenses – Extinção das hostes invasoras – A sua representação diante do seu Príncipe – Os filhos dos Vales – Paz  


O acampamento de Cataneo foi lançado quase às portas de La Torre, sob a sombra da Castelluzzo. O legado papal está prestes a tentar forçar seu caminho para o vale de Angrogna. Este vale se abre firmemente no local onde o legado tinha estabelecido seu acampamento, e corre por uma dúzia de milhas para os Alpes, numa sucessão magnífica de gargantas estreitas e pequenos vales abertos, todo murado por montanhas majestosas, e terminando em uma nobre bacia circular – o Pra del Tor – rodeado com picos nevados, e se constitui o local mais venerado em todo o território valdense, visto que foi a sede de sua faculdade, e o lugar de encontro de seus pastores.
Em Pra del Tor, ou prado da Torre, Cataneo esperava surpreender a massa do povo valdense, agora reunidos  naquele que é o seu mais forte refúgio concedido pelos seus montes. Lá, também, ele esperava se juntar com as tropas que tinha enviado para circundar Lucerna e fazer o circuito dos Vales, e depois de devastar Prali e San Martino, escalar a barreira montanhosa e reunir seus homens em Pra, nem imaginando que os soldados que tinha enviado com a incumbência de massacrar estavam agora enriquecendo com seus corpos o solo dos vales que tinham sido enviados para subjugar. No mesmo local onde os pastores tantas vezes se reuniram em sínodo, e instituíram regras para o governo da sua Igreja e à propagação de sua fé, o legado papal almejava reunir o seu exército vitorioso, e terminar a campanha ao anunciar que agora a heresia valdense, raiz e ramo, foram extintas.
Os valdenses - sua súplica humilde para a paz foi rejeitada com desprezo, como já dissemos - tiveram três opções para escolher - ir à missa, serem abatidos como ovelhas, ou lutar por suas vidas. Eles escolheram a última, e se preparam para a batalha. Mas primeiro eles levaram para um lugar seguro todos os que eram incapazes de portar armas.

Arrumando as suas amassadeiras, seus fornos e outros utensílios culinários, levando seus idosos em seus ombros, e os doentes em macas, e seus filhos pela mão, começaram a subir os morros, na direção de Pra del Tor, na cabeça do vale de Angrogna. Transportando seus pertences, eles podiam ser vistos percorrendo os caminhos ásperos, e fazendo ressoar nas montanhas os salmos, que docemente cantavam como se viajassem até a ascensão. Aqueles que permaneceram ocuparam-se em fazer lanças e outras armas de defesa e ataque, na reparação das barricadas, a organizar-se em luta contra as hostes, e se distribuindo em vários lugares para se defender.
 
Cataneo agora coloca seus soldados em movimento. Avançando para perto da cidade de La Torre, eles fizeram uma curva acentuada à direita, e entraram no vale de Angrogna. Sua abertura não oferece nenhuma obstrução, sendo suave até mesmo como em qualquer prado em toda a Inglaterra. Logo adiante começa a crescer nas alturas o Rocomaneot, onde os valdenses tinham resolvido montar posição. Seus homens de combate foram postados ao longo de sua crista. Seu exército era dos mais simples. O arco era quase a sua única arma de ataque. Eles usavam escudos de pele, coberta com casca de castanheiro, para melhor resistir à pressão da lança ou golpe da espada. Na depressão atrás de si, protegida pela colina íngreme sobre a qual seus pais, maridos e irmãos foram postados, havia um número de mulheres e crianças, reunidas ali para se abrigarem. As hostes do Piemonte pressionavam o aclive, descarregando uma chuva de flechas à medida que avançavam, e a linha de defesa valdense em que esses dardos caíam, parecia vacilar e estar a ponto de ceder. Aqueles que estavam atrás, percebendo o perigo, caíram de joelhos e, estendendo as mãos em súplica ao Deus das batalhas, clamaram em alta voz: "Ó Deus de nossos pais, ajuda-nos, ó Deus, livrai-nos!" Esse choro foi ouvido pela máquina de guerra atacante e, especialmente, por um dos seus capitães, Le Noir de Mondovi, ou Mondovi Negro, um homem orgulhoso, fanático e sedento de sangue. Ele instantaneamente gritou que seus soldados iriam dar a resposta, acompanhando sua ameaça com blasfêmias horríveis. O Mondovi Negro ergueu a viseira de seu elmo enquanto falava. Em um instante a seta do arco de Pierre Revel, de Angrogna, entrou entre os seus olhos, atravessou o crânio e ele caiu sobre a terra já morto. A queda deste líder ousado desanimou o exército do Papa. Os soldados começaram a cair para trás. Eles foram perseguidos pelas encostas pelos valdenses, que agora desciam sobre eles como torrentes de água da própria montanha. Após ter corrido seus invasores para a planície, matando alguns poucos em sua fuga, eles voltaram, pois a noite começava a cair, para comemorar com músicas, nas alturas em que tinham vencido, a vitória com a qual teve a satisfação do Deus de seus pais, para coroar seus exércitos.

Cataneo parecia se inflamar de raiva e vergonha ao ser derrotado por estes pastores. Em poucos dias, remontou suas hostes e fez uma segunda tentativa de entrar em Angrogna. Esta prometia ser bem sucedida. Ele passou a alturas de Rocomaneot, onde foi sua primeira derrota, sem encontrar qualquer resistência. Ele levou os seus soldados para os desfiladeiros estreitos mais além. Aqui há grandes pedras no caminho, poderosos castanheiros lançando seus galhos sobre  trilha, vendando-o na escuridão, e trovões muito baixos das torrentes das águas do vale. Ainda avançando, ele encontrou-se, sem luta, na posse de uma extensão ampla e fecunda para que, passados esses desfiladeiros, o vale se abre. Ele agora era até aqui o dono do vale de Angrogna, compreendendo as numerosas aldeias, com os seus campos e vinhas cultivadas primorosamente, à esquerda da torrente. Mas ele não tinha visto nenhum dos seus habitantes. Estes, ele sabia, estavam com os homens de Lucerna em Pra del Tor. Entre ele e sua presa estava levantada a "barricada", uma montanha íngreme quase impossível de escalar, que funciona como uma parede que cruza todo o vale, e forma um baluarte para o famoso "prado", que combina a solenidade de um santuário com a força de uma cidadela.

Devia o avanço do legado papal e seu exército acabar aqui? Parecia que sim. Cataneo estava em um grande beco sem saída. Ele podia ver os picos brancos em volta de Pra, mas entre ele e Pra se levantava, com força ciclópica e em altura, a barricada. Ele procurou e, infelizmente para ele, encontrou uma entrada. Alguma convulsão da natureza aqui rachou as montanhas, e através do longo abismo, estreito e escuro assim formado, está o único caminho que leva a parte mais alta do Angrogna. O líder do exército do Papa corajosamente ordenou aos seus homens a entrar e percorrer este desfiladeiro terrível, não sabendo que alguns deles, não voltarão. A única via por este abismo é uma saliência rochosa do lado das montanhas, tão estreita que não mais de dois homens podem avançar ao longo dela. Caso seja assaltado de frente ou atrás, ou de cima para baixo, não há absolutamente nenhum recuo. Também não há espaço para atacar e lutar. O trajeto pende na metade entre o fundo do desfiladeiro, ao longo de um córrego e o cume da montanha. Aqui o precipício nu corre enorme por pelo menos mil pés; então se inclina sobre o caminho em estupenda massa, que parece como se estivesse prestes a cair. Aqui a fissura lateral acolhe os raios dourados do sol, que aliviam a escuridão da passagem, e a torna visível. Há um meio acre ou mais de espaço nivelado que vai dar em um salão na encosta da montanha cheio de moitas de bétulas, com seus altos troncos prateados, ou de um chalé, com o seu pedaço de prado brilhante raspado. Mas estes só parcialmente aliviam os terrores do abismo, que é percorrido de uma a duas milhas, quando, com uma explosão de luz, e um lampejo súbito de picos brancos sobre os olhos, abre-se em um anfiteatro do prado de dimensões tão formosas, que uma nação inteira poderia encontrar espaço para acampar nele.
 
Foi nesse desfiladeiro terrível que os soldados do legado papal agora marcham. Eles continuaram avançando, da melhor forma possível, ao longo da borda estreita. Eles estavam agora perto de Pra. Parecia impossível para a presa escapar-lhes. Montado sobre este ponto e o povo valdense havia apenas um gargalo e depois os soldados do Papa, então Cataneo acreditava que romperia esse gargalo em um só golpe. Mas Deus estava vigiando os valdenses. Ele disse do legado papal e seu exército o mesmo de outro tirano de outrora, "porei o meu anzol no teu nariz e o meu freio nos teus lábios, e te farei voltar pelo caminho por onde vieste" (N.T.: citação de II Reis 19:28). Mas por qual intervenção foi o avanço dessa horda suspensa? Será que algum anjo poderoso feriria o exército de Cataneo como ele fez com Senaqueribe? Nenhum anjo bloqueou a passagem. Será que um relâmpago brilhante acompanhado de um trovão e chuva de granizo cairia sobre os soldados de Cataneo, como foi sobre Sísera? Os trovões dormiam, o granizo não caiu. Um terremoto e um tufão não os derrotaria? Nenhum terremoto sacudiu a terra, nem redemoinhos rechaçaram as montanhas. A instrumentalidade agora posta em movimento para proteger os valdenses da destruição foi uma dos mais leves e frágeis em toda a natureza; nem barras de ferro mais resistentes poderiam ter mais efetivamente fechado a passagem, e trazido a marcha do exército papal a uma parada instantânea.

Uma nuvem branca, não maior do que a mão de um homem, não vista pelos piemonteses, mas observada atentamente pelos valdenses, foi vista se reunindo no cume da montanha, ao mesmo tempo em que o exército entrava no desfiladeiro. Essa nuvem cresceu rapidamente tornando-se maior e mais escura e começou a descer. Ela veio rolando pelo lado da montanha, ondas após ondas, como um oceano caindo do céu – um mar de vapor nebuloso. Ela caiu para o lado direito do abismo em que estava o exército papal, o selando, e o cobrindo de cima a baixo com uma névoa espessa e negra. Em um momento as hostes ficaram na penumbra, perplexos, estupefatos, e não podiam ver nem para frente nem para trás, nem podiam avançar nem recuar. Pararam em um estado limítrofe de terror [Monastier, pp. 133-4].

Os valdenses interpretaram isso como uma interposição da Providência, em seu favor. Tinha Deus lhes dado o poder de repelir o invasor. Subindo a encosta de Pra, e saindo de todos os seus esconderijos nos arredores, espalharam-se sobre as montanhas, pelos caminhos os quais estavam familiarizados, e enquanto as hostes estavam como que paralisadas abaixo deles, presos na armadilha dupla do desfiladeiro e da neblina, eles lançaram enormes pedras e rochas abaixo, na ravina. Os soldados papais foram esmagados onde estavam. E isso não foi tudo. Alguns dos valdenses corajosamente entraram no abismo, de espadas na mão, e os atacaram no front. A consternação tomou conta das hostes do Piemonte. O pânico impeliu-os a fugir, mas seu esforço para escapar foi mais fatal do que a espada dos valdenses, ou as pedras que, velozes como flechas, vinham saltando montanha abaixo. Eles se empurraram um ao outro, lançaram um ao outro na luta, alguns foram perseguidos até a morte, outros foram rolados no precipício, e esmagados nas rochas abaixo, ou se afogaram na torrente, e assim pereceram miseravelmente [Monastier, p. 134].

O destino de um dos invasores foi preservado na história. Ele era um certo Capitão Saquet, um homem, é dito, de estatura gigantesca, de Polonghera, região do Piemonte. Começou, assim como seu protótipo filisteu, a proferir maldições sobre os valdenses. As palavras estavam ainda em sua boca quando seu pé escorregou. Acabou rolando no precipício e caiu na torrente do Angrogna, sendo levado por ela, e tendo seu corpo finalmente depositado em um profundo reservatório ou redemoinho d’água, chamado no jargão do país de "tompie" por causa do barulho feito por suas águas. Ela tem até hoje o nome do Tompie do Saquet, ou Golfo de Saquet.

[O autor conheceu este tanque natural de água quando visitou o abismo. Nenhum dos vales valdenses é mais bem ilustrado pela triste, mas gloriosas cenas do martírio do que este Vale de Angrogna. Cada pedra que está lá tem a sua história. À medida que você passa por ele, é mostrado o local onde crianças foram lançadas contra as pedras - o local onde homens e mulheres, despidos, foram rolados como bolas, e precipitados montanha abaixo, e onde, ao chocar-se com galhos de árvores, ou nas pontas salientes de rochas, eles ficavam pendurados, transpassados, resistindo por vários dias a agonia de uma morte em vida. É mostrado a entrada das cavernas, em que algumas centenas de valdenses se refugiaram, e onde os seus inimigos acenderam fogo na boca do seu esconderijo, e impiedosamente mataram a todos eles. O tempo não é suficiente para dizer até um décimo do que foi feito e sofrido neste notável passado.]

Esta guerra esteve sobre os vales, como uma nuvem de tempestade, por um ano inteiro. Infligiu muito sofrimento e perdas sobre os valdenses; suas casas foram queimadas, os campos devastados, os seus bens saqueados, e seu povo morto, mas os invasores sofreram perdas mais pesadas do que a eles foi infligido. Dos 18 mil soldados regulares, aos quais podemos acrescentar um número igual de criminosos, com o qual começaram a campanha, alguns nunca mais voltaram para suas casas. Eles deixaram seus ossos nas montanhas que chegaram para dominar. Eles foram mortos na maior parte em pequenos destacamentos. Foram incansavelmente perseguidos do vale à montanha e da montanha ao vale. As rochas que rolaram sobre eles deram-lhes ao mesmo tempo morte e sepultamento. Eles foram atacados em desfiladeiros estreitos e mortos. Perseguindo grupos de valdenses, subitamente surgiam da neblina, ou de alguma caverna conhecida apenas por eles, atacavam e derrotavam o inimigo, e então de repente se retiravam na névoa aliada ou no abrigo das rochas. Assim aconteceu que, nas palavras de Muston, "este exército de invasores desapareceu das montanhas valdenses como a chuva nas areias do deserto" [Muston, p. 11].
 
"Deus", diz Leger "mudou o coração do seu príncipe para com este pobre povo". Ele enviou um prelado para os seus vales, para assegurá-los de sua boa vontade, e notificá-los do seu desejo de receber os seus representantes. Eles enviaram doze de seus homens mais veneráveis a Turim, que, sendo admitidos a presença do duque, deu-lhes razão a sua fé, e candidamente confessou que tinha sido induzido ao erro no tocante ao que tinha feito contra eles, e não mais sofreriam tais males como os que foram infligidos sobre eles. Ele disse várias vezes que "não tinha tão virtuosos, tão fiéis e tão obedientes súditos como os valdenses" [Leger, Livr. ii., p. 26].

Ele causou nos representantes uma pequena surpresa ao expressar o desejo de ver alguns dos filhos dos valdenses. Doze crianças, com suas mães, foram imediatamente enviadas do vale do Angrogna, e apresentadas diante do príncipe. Ele as examinou minuciosamente. E as achou bem formadas, e declarou sua admiração pelos seus rostos saudáveis, olhos claros e aparência alegre. Ele tinha dito que fora informado que "as crianças valdenses eram monstros, com um único olho colocado no meio da testa, quatro fileiras de dentes pretos, e outras deformidades semelhantes" [Ibid.].
 
O príncipe Charles II, um jovem de apenas vinte anos, mas compassivo e sábio, confirmou os privilégios e imunidades dos valdenses, e negou-lhes com sua promessa de que eles seriam molestados no futuro. [1] As Igrejas dos Vales agora desfrutam de uma breve trégua de perseguição.


NOTAS:

[1] Leger e Gilles dizem que foi Philip VII que pôs termo a esta guerra. Monastier diz que eles "estão enganados, pois o príncipe estava então na França, e não começou a reinar até 1496." Esta paz foi concedida em 1489.

Traduzido por Edimilson de Deus Teixeira
Fonte:  Providence Baptist Ministries

História dos Valdenses:
Prefécio e Introdução
Capítulo 1:
Os Valdenses, seus Vales
Capítulo 2:
Os Valdenses, suas Missões e Martírios
Capítulo 3:
Suas Primeiras Perseguições
Capítulo 4:
A Expedição de Cataneo contra os Crentes do Deuphine e Piemonte
Capítulo 6:
Sínodo nos Vales Valdenses
Capítulo 7:
Perseguições e Martírios
Capítulo 8:
Preparativos para Uma Guerra de Extermínio
Capítulo 9:
A Grande Campanha de 1561

Capítulo 10:
Colônias Valdenses na Calábria e Apúlia
Capítulo 11:
Extinção dos Valndenses na Calábria
Capítulo 12:
O Ano da Praga
Capítulo 13:
O Grande Massacre
Capítulo 14:
Façanhas de Gianavello - Massacre e Pilhagem em Rora
Capítulo 15:
O Exílio
Capítulo 16:
O Retorno aos Vales

Capítulo 17:
Restabelecimento Final nos Vales

Último Capítulo:
As Condições dos Valdenses desde 1690

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